A doença de Parkinson é uma condição neurodegenerativa progressiva que afetou cerca de 11,8 milhões de pessoas no mundo em 2021, segundo o estudo Global Burden of Disease. Ela se caracteriza pela perda gradual de neurônios produtores de dopamina na parte compacta da substância negra. Quando os primeiros sintomas motores aparecem, cerca de metade ou mais desses neurônios já foi perdida, o que ajuda a entender por que os sinais iniciais são sutis e costumam ser confundidos com o envelhecimento normal, estresse ou problemas ortopédicos.

Reconhecer cedo esses sinais permite acompanhamento mais próximo, início do tratamento sintomático no momento adequado e planejamento do cuidado de longo prazo. Este artigo reúne os dez sinais iniciais que mais merecem atenção, motores e não motores, com foco em informação útil e sem alarmismo.

É importante reforçar que a presença isolada de um ou mais desses sinais não confirma o diagnóstico. Muitas condições produzem sintomas semelhantes. Apenas uma avaliação médica, com história clínica detalhada e exame neurológico, permite o diagnóstico correto. O conteúdo a seguir tem caráter exclusivamente educativo.

Por que os primeiros sinais da doença de Parkinson costumam passar despercebidos

Os sintomas geralmente começam de forma insidiosa e assimétrica, afetando um lado do corpo antes do outro. Nas fases iniciais, a pessoa ou a família atribui as mudanças à idade, ao cansaço ou a problemas musculares. Sintomas não motores, como alterações no olfato, no sono, no humor e no funcionamento intestinal, podem surgir anos ou mesmo décadas antes dos sintomas motores clássicos e raramente são associados à doença.

A progressão é variável. Alguns pacientes permanecem com sintomas leves por vários anos, enquanto outros notam evolução mais rápida. Compreender os sinais precoces ajuda a buscar orientação no momento adequado e a planejar o cuidado de longo prazo, que pode incluir, em fases mais avançadas, opções como a estimulação cerebral profunda (cirurgia de DBS).

Os 10 primeiros sinais da doença de Parkinson que merecem atenção

A seguir estão os dez sinais mais relevantes do ponto de vista clínico, cobrindo tanto os aspectos motores quanto os não motores.

1. Tremor de repouso

O tremor característico do Parkinson aparece com o membro relaxado e apoiado, tende a diminuir durante o movimento voluntário e desaparece no sono. Frequentemente começa em uma das mãos, com um movimento dos dedos e do polegar que lembra o ato de rolar uma pílula entre eles, podendo envolver também o pé, a mandíbula ou o queixo. No início é intermitente e discreto, ficando mais visível em situações de estresse ou fadiga.

Nem todo tremor é Parkinson. O tremor essencial, por exemplo, ocorre principalmente durante a ação e costuma ser bilateral. Dois pontos merecem registro: no Parkinson também pode ocorrer um tremor postural que reaparece alguns segundos depois de a pessoa esticar os braços, chamado tremor reemergente; e cerca de um em cada quatro pacientes nunca apresenta tremor. A ausência de tremor não afasta o diagnóstico.

2. Bradicinesia (lentidão dos movimentos)

A bradicinesia é o sintoma obrigatório para o diagnóstico. Pelos critérios da Movement Disorder Society, publicados em 2015, só se caracteriza parkinsonismo quando há bradicinesia associada a tremor de repouso, rigidez, ou aos dois. Na prática, a pessoa nota que tarefas cotidianas passam a exigir mais tempo e esforço: abotoar a camisa, escrever, digitar, levantar-se de uma cadeira, virar na cama ou caminhar.

Além da lentidão, existe um componente igualmente característico: a amplitude do movimento diminui progressivamente quando ele é repetido, como ao abrir e fechar a mão várias vezes seguidas. Familiares frequentemente percebem que a pessoa está mais lenta antes que ela própria perceba. Não se trata de cansaço apenas.

3. Rigidez muscular

Rigidez é o aumento da resistência ao movimento passivo do membro, identificado pelo médico durante o exame, às vezes com o padrão descrito como roda denteada. O paciente costuma percebê-la como endurecimento, peso, dificuldade para relaxar o braço ou desconforto no pescoço e nos ombros.

Um ponto pouco lembrado: a rigidez inicial se manifesta com frequência como dor. A dor no ombro, incluindo quadros de ombro congelado, está entre as queixas que mais antecedem o diagnóstico e costuma ser tratada por meses como problema ortopédico. Um estudo dinamarquês de base populacional descreveu risco aumentado de diagnóstico de Parkinson nos anos seguintes a um episódio de ombro congelado. Diante de dor e limitação de ombro sem causa clara, sobretudo acompanhadas de lentidão ou de redução do balanço do braço do mesmo lado, a avaliação neurológica é justificada.

4. Micrografia (letra cada vez menor)

A escrita fica progressivamente menor, com letras apertadas e traços mais curtos. A pessoa pode notar que a caligrafia encolhe ao longo de uma frase ou de uma página. Esse sinal reflete a mesma redução de amplitude descrita na bradicinesia, aplicada à motricidade fina.

Existem outras causas para mudanças na escrita, a micrografia associada a lentidão ou tremor reforça a necessidade de avaliação.

5. Redução do balanço de um dos braços e mudanças na marcha

Ao caminhar, um dos braços balança menos ou deixa de balançar. É um dos achados mais precoces e é tipicamente assimétrico, o que faz com que familiares percebam antes do próprio paciente. Os passos ficam mais curtos, a velocidade da caminhada cai e girar o corpo passa a exigir mais passos. A postura pode começar a se inclinar levemente para a frente.

Vale uma distinção importante: a marcha festinante, com passos rápidos e curtos e sensação de ser puxado para a frente, e o congelamento da marcha não são sinais iniciais. Aparecem em fases mais avançadas. Da mesma forma, instabilidade postural com quedas nos primeiros anos de doença não é típica do Parkinson e levanta suspeita de outras formas de parkinsonismo.

6. Perda ou redução do olfato (hiposmia ou anosmia)

A diminuição da capacidade de sentir cheiros está entre os sintomas não motores mais precoces e frequentes, presente em até 90% dos pacientes ao longo da doença. Pode preceder os sintomas motores em vários anos, às vezes mais de uma década. A pessoa deixa de perceber odores de alimentos, perfumes ou ambientes, sem ter problema nasal ou respiratório evidente.

Isoladamente, a perda de olfato tem baixa especificidade: rinossinusite, infecções virais, traumatismo craniano, tabagismo e o próprio envelhecimento também a reduzem. O valor do sinal está na combinação com os demais.

7. Constipação intestinal persistente

A constipação crônica sem explicação por dieta, medicamentos ou hábitos é comum no Parkinson e pode surgir 10 a 20 anos antes dos sintomas motores. A doença acomete o sistema nervoso entérico, reduzindo a motilidade intestinal.

Como a constipação é frequente na população geral, o que chama atenção é o quadro persistente, sem causa aparente e refratário às medidas simples, em quem apresenta outros indícios.

8. Transtorno comportamental do sono REM

No transtorno comportamental do sono REM, a pessoa representa os sonhos: fala, gesticula, chuta ou se movimenta de forma intensa durante o sono, podendo cair da cama ou machucar o parceiro de cama. Isso ocorre porque a inibição normal dos movimentos durante o sono REM está prejudicada.

Quando confirmado por polissonografia e sem outra causa identificável, é o marcador prodrômico mais forte que se conhece. Em estudo multicêntrico com 1.280 pacientes, a taxa de conversão para doença de Parkinson, demência com corpos de Lewy ou atrofia de múltiplos sistemas foi de aproximadamente 6,25% ao ano, chegando a 73,5% em 12 anos de seguimento.

Dois cuidados são necessários. Primeiro, o diagnóstico exige polissonografia, porque apneia do sono e outros distúrbios podem simular o quadro. Segundo, por ter peso prognóstico elevado, o achado deve ser interpretado e comunicado dentro de uma avaliação especializada, e não a partir de uma suspeita isolada. Outros problemas de sono, como fragmentação e sonolência diurna excessiva, também podem aparecer precocemente.

9. Alterações de humor: depressão, ansiedade e apatia

Depressão, ansiedade e apatia podem surgir antes dos sintomas motores e não são apenas reação ao diagnóstico. Alterações nos circuitos de dopamina, serotonina e noradrenalina contribuem para esses quadros. A pessoa pode apresentar desânimo, falta de motivação, irritabilidade ou preocupação excessiva sem causa aparente.

A apatia merece destaque porque é frequentemente confundida com depressão pela família, embora tenha manejo diferente. Reconhecer esses sintomas é importante porque o tratamento adequado melhora a qualidade de vida e a adesão às demais terapias.

10. Redução da expressão facial, voz mais baixa e mudanças posturais leves

A face fica menos expressiva, com redução do piscar e do sorriso espontâneo, quadro conhecido como hipomimia. A voz tende a ficar mais baixa e monótona, e a pessoa passa a ser solicitada a repetir o que disse com frequência. A postura pode começar a se curvar discretamente.

Esses sinais não decorrem de fraqueza ou de doença dos músculos da face e da laringe. São a expressão da bradicinesia nos movimentos automáticos, com redução de amplitude e de velocidade. Um detalhe comum é a discrepância entre a percepção do paciente, que julga estar falando no volume habitual, e a do interlocutor.

Outros sinais menos lembrados

Além dos dez anteriores, outras queixas aparecem com frequência nas fases iniciais e podem ajudar a compor o quadro:

  • Fadiga desproporcional ao esforço;
  • Salivação excessiva, por redução da deglutição automática;
  • Sintomas urinários, principalmente urgência e aumento das idas noturnas ao banheiro;
  • Tontura ao levantar, sugerindo hipotensão ortostática;
  • Dificuldade de percepção de contraste e visão embaçada;
  • Dor difusa e mal localizada, inclusive com características neuropáticas.

Sinais que apontam para outros diagnósticos

Nem todo parkinsonismo é doença de Parkinson. Alguns achados, quando surgem precocemente, sugerem outras causas e mudam a conduta:

  • Quedas nos primeiros anos de evolução;
  • Comprometimento cognitivo importante logo no início do quadro;
  • Disautonomia grave precoce, com desmaios ou alterações urinárias marcadas;
  • Início simétrico e sem tremor;
  • Resposta insatisfatória à levodopa em dose adequada;
  • Instalação súbita ou progressão muito rápida;
  • Uso de medicamentos que bloqueiam a dopamina, como alguns antipsicóticos, a metoclopramida, a flunarizina e a cinarizina. Trata-se de causa frequente de parkinsonismo e, ao contrário da doença de Parkinson, potencialmente reversível.

Sintomas motores e não motores: uma visão integrada

Os sintomas motores clássicos, tremor, bradicinesia, rigidez e alterações de marcha e postura, são os mais conhecidos, mas os não motores frequentemente antecedem o diagnóstico formal e têm impacto grande na qualidade de vida.

A dor merece atenção específica. Ela está presente em grande parte dos pacientes desde fases iniciais e pode ter origem musculoesquelética, ligada à rigidez e à redução da mobilidade, ou características neuropáticas e centrais. Avaliar a dor junto com os sintomas motores muda a conduta, porque parte dessas queixas responde ao ajuste da medicação dopaminérgica e não apenas a analgésicos.

A doença evolui de forma diferente em cada pessoa. Muitos mantêm boa resposta aos medicamentos por anos. Com o tempo, porém, podem surgir flutuações motoras, o chamado fenômeno off, e discinesias. Nessas situações, opções avançadas como a cirurgia de DBS passam a ser avaliadas em pacientes selecionados, com o objetivo de reduzir as flutuações, as discinesias e as doses de medicação.

Quando procurar avaliação

Se você ou um familiar identifica um ou mais desses sinais de forma persistente, sobretudo quando há combinação de sintomas motores e não motores, o passo inicial é a avaliação com um neurologista, com experiência em distúrbios do movimento. O diagnóstico é clínico e se baseia na história, no exame neurológico e, quando necessário, em exames complementares para excluir outras causas. A neurocirurgia funcional entra em um segundo momento da trajetória, quando o tratamento medicamentoso deixa de controlar bem os sintomas.

Até hoje nenhum medicamento demonstrou interromper a neurodegeneração. Ainda assim, o diagnóstico no momento certo permite:

  • Iniciar o tratamento sintomático quando ele é necessário;
  • Orientar exercício físico, fisioterapia e hábitos que ajudam a preservar funcionalidade. O exercício regular, incluindo treino de intensidade mais alta, é hoje a intervenção não medicamentosa com os melhores dados sobre progressão motora, e está em avaliação em ensaio clínico de fase 3;
  • Acompanhar a evolução ao longo do tempo;
  • Planejar intervenções futuras, incluindo neuromodulação quando indicada;
  • Rever medicamentos em uso que possam estar causando ou agravando o parkinsonismo.

Na página sobre Doença de Parkinson há informações detalhadas sobre as opções de tratamento. Os conteúdos sobre o fenômeno off e sobre a estimulação cerebral profunda aprofundam as fases mais avançadas da doença.

Perguntas frequentes sobre os primeiros sinais do Parkinson

Ter tremor na mão significa que tenho Parkinson?

Não. O tremor essencial é mais comum que o Parkinson e aparece principalmente durante a ação, com frequência nas duas mãos. Além disso, cerca de um em cada quatro pacientes com Parkinson nunca desenvolve tremor. O que orienta o diagnóstico é o conjunto de achados no exame neurológico.

Qual costuma ser o primeiro sinal do Parkinson?

Não existe um único primeiro sinal. Entre os não motores, perda de olfato, constipação e transtorno comportamental do sono REM podem preceder os sintomas motores em muitos anos. Entre os motores, a redução do balanço de um dos braços e a lentidão para tarefas finas costumam ser os mais precoces.

Existe exame de sangue ou de imagem que confirme o Parkinson?

O diagnóstico é clínico. Exames de imagem, como ressonância magnética e cintilografia de transportador de dopamina, são usados em casos selecionados, sobretudo para excluir outras causas ou esclarecer quadros duvidosos.

Quanto tempo depois dos primeiros sinais a cirurgia de DBS pode ser indicada?

Não há prazo fixo. A cirurgia de DBS não é tratamento das fases iniciais. É considerada quando o paciente, apesar de responder à levodopa, apresenta flutuações motoras ou discinesias que limitam o dia a dia, o que costuma ocorrer anos após o diagnóstico e depende da evolução de cada caso.

Considerações finais

Os primeiros sinais da doença de Parkinson raramente são dramáticos. Instalam-se de forma gradual e pedem atenção cuidadosa. Reconhecê-los não significa antecipar um diagnóstico, mas abrir espaço para uma avaliação responsável e para o acompanhamento adequado.

Se você identificou sintomas que geram dúvidas, procure um especialista. Informação clara e cuidado individualizado são os primeiros passos para preservar funcionalidade e autonomia no dia a dia.

Para mais informações sobre a doença e as opções de tratamento, visite as páginas dedicadas à Doença de Parkinson e à Estimulação Cerebral Profunda.

Referências

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  • Postuma RB, et al. Risk and predictors of dementia and parkinsonism in idiopathic REM sleep behaviour disorder: a multicentre study. Brain. 2019;142(3):744-59.
  • Doty RL. Olfactory dysfunction in Parkinson disease. Nat Rev Neurol. 2012;8(6):329-39.
  • Global, regional, national epidemiology and trends of Parkinson’s disease from 1990 to 2021: findings from the Global Burden of Disease Study 2021.
  • Frozen Shoulder and the Risk of Parkinson’s Disease: A Danish Registry-Based Cohort Study. Clin Epidemiol. 2024.
  • Schenkman M, et al. Effect of High-Intensity Treadmill Exercise on Motor Symptoms in Patients With De Novo Parkinson Disease: A Phase 2 Randomized Clinical Trial. JAMA Neurol. 2018;75(2):219-26.

Dr. Pedro Henrique Cunha Neurocirurgião Funcional | CRM-SP 212368 | RQE Neurocirurgia 92126 | Área de Atuação Dor RQE 921261 Contato: (11) 91458-2344

As informações deste artigo têm caráter exclusivamente educativo e não substituem a consulta médica individualizada. Em caso de sintomas, consulte um profissional habilitado.


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